Festa da Penha / RJ
 

Provenientes do período colonial, as festas que obedeciam ao calendário católico desfrutaram principalmente durante o Império, de larga popularidade no Rio de Janeiro. A Festa da Penha foi uma destas festividades e encontrou seu apogeu nos fins do século XIX e início do XX.

A Festa de Nossa Senhora da Penha foi instituída oficialmente por Dom João VI, em 8 de setembro de 1816.

Em 1897, o Jornal “Paiz” de 03 de outubro informava: “Se antes dos comboios da Estrada de Ferro eram 50.000 os devotos, hoje não fica mentiroso quem os calcula em 120.000.”

“Desde manhã cedo, avultada massa de povo afluiu às estações da Estrada de Ferro Central e do Norte, onde os trens se sucederam literalmente carregados transportando a multidão de fiéis em demanda da tradicional festa.” (Jornal do Comércio – outubro/1898)

Mas nem todos compartilhavam desta tradição e destilavam seus desapreços em relação a Romaria que cruzava a cidade em direção à Penha. Intelectuais, como Olavo Bilac, propunham proibir essa “escandalosa e selvagem” Romaria. Era o preconceito contra a popularidade da Festa da Penha e opinião de muitos desta época.

Cantar, dançar (samba principalmente), comer, beber, tocar a viola, a capoeira, era tido como o lado profano da festa.

Em cada canto formava-se um “samba”, os cordões emendavam-se uns aos outros interminavelmente...um grupo de pretas descalças cantavam e dançavam batendo palmas e sacudindo o corpo desengonçadamente. Tal “promiscuidade” era intolerável para os grupos que assumiam o poder com a República.

Após o período de Padre Ricardo a frente da Irmandade, a própria Igreja, desenvolve o combate ao “catolicismo popular.”

Duas fases da Igreja em relação a Festa da Penha são identificadas na atuação de dois de seus Capelães. O primeiro deles, Padre Ricardo, até 1907, teve grande participação na vida da localidade. Foi “político” atuante, tendo papel importante na campanha abolicionista, quando em sua chácara acolheu escravos fugidos, passando esta a ser conhecida como “Quilombo da Penha”; Foi empresário, tendo sido proprietário de fábrica de tijolos. Empenhou-se em popularizar a Festa da Penha.

Em contraste com o Padre Ricardo, temos o Padre José Maria Alves da Rocha que o sucedeu. Este era bastante conservador e busca retirar da Festa, o seu conteúdo popular sob o pretexto de que “esta se transformara numa orgia, dando lugar a excessos, praticados em nome da Santa”. Para isto teria recorrido à força, apelando mesmo para a repressão policial. Além da proibição da venda de bebidas alcoólicas, foi impedida a presença de ranchos, blocos e rodas de batucada na Penha.

Inúmeros desmandos foram cometidos pelas forças repressivas sobre os populares, era quase uma operação de guerra. Muitos conflitos, durante vários anos, ocorriam no arraial e fora deste, por conta da intervenção malévola dos mantenedores da ordem.

Em 27 de outubro de 1913, o Jornal do Comércio iniciava seu noticiário sobre a Festa afirmando que, “para perturbar a ordem em que corriam os folguedos, surgiu, em lugar de gente que disto faz mister, uma patrulha do Batalhão Naval que ali fora para impedir desatinos por praças daquela corporação. Comandava a patrulha um sargento Galvão, indivíduo malvado e insolente que, armado de cacete distribuía pancada pelo povo, no que era seguido por seus subordinados.”
Em 1907, os “sambas” foram permitidos, mas os pandeiros e os instrumentos foram proibidos. Os populares, porém, não se renderam, acompanhando o samba com as palmas das mãos ou, como no ano seguinte, batendo nas garrafas com um pedaço de pau.

O Jornal do Comércio, de 17 de outubro de 1910, informa que até às 3 horas, não teria havido nenhum distúrbio, mas à frente de um samba apareceu...a figura engomada e reluzente do preto Juventino, capoeira da Glória, afamado, e mais adiante fez duas letras de dança de velho..., que o levaram para o xadrez do posto.
Em 21 de outubro de 1912, o Jornal do Brasil, assumia a posição de que a polícia devia dar liberdade aos foliões, o samba, o batuque e as danças típicas eram apreciadas por pessoas de todas as classes que admiravam o desembaraço e a destreza dos nossos patrícios numa dança nacional tão apreciada até por estrangeiros.

Os populares criavam alternativas contra as proibições de sambas e batuques. Uma delas foi o desfile do grupo carnavalesco “Mistérios do Avermo”, com uma charanga, executando belos tangos e polkas que mereceram os mais vivos e calorosos aplausos. Outros, mais corajosos, resolveram enfrentar as proibições e cantar o samba em “Desafios”.

A pressão dos populares não foi em vão. Em 1916, o Chefe de Polícia, liberou a realização dos sambas e batuques, ponto alto das diversões populares da Festa. Inúmeros Ranchos e Grupos carnavalescos desfilaram, como o Rancho “A Flor das Marrecas”, onde Caninha cantava. Outros Grupos, “Rosa Branca” e o Bloco “Macaco Sabe Sabe Rompeu o Samba” deixavam a barraca da famosa Tia Ciata e percorriam o arraial, acompanhados de dezenas de foliões.

Os grupos musicais e os blocos carnavalescos cantando sambas e batuques, apesar das proibições que voltavam a cada ano, marcavam na Penha, a sua presença, assumindo definitivamente o seu espaço. A Festa da Penha tornou-se, assim, a festividade mais popular do Rio de Janeiro, depois do Carnaval.

Numa época em que ainda inexistia o rádio, a Penha, torna-se palco do lançamento de composições musicais e, segundo Heitor dos Prazeres, a aceitação dessas composições naquele evento tranqüilizavam seus autores, confessando ele próprio ter ficado conhecido a partir da Festa da Penha. Como ele, outros expoentes da Música Popular Brasileira eram, ali, figuras obrigatórias, como Sinhô, Caninha, Pixinguinha, Donga e João da Baiana. Muitas das músicas lançadas na referida festa transformaram-se em sucessos populares durante o Carnaval, funcionando a Penha como “avant-première” do mesmo.

Os trens eram colocados em horários extraordinários para atender a demanda.

A ressonância dessa festa era tão grande que a publicidade da época valia-se desse evento para divulgar seus produtos.

Em 1914, a Gazeta de Notícias, informava que o vira e o fado foram destronados em absoluto e agora o samba indígena e o maxixe requebrado do Brasil vão em pleno sucesso.

Diversos segmentos sociais passam a estar presentes na Penha. A influência negra foi decisiva. Ali armavam barracas com comidas típicas, muitas dirigidas pelas célebres tias baianas, as quais, juntamente com outras mulheres, tiveram um papel fundamental na organização da festa. Davam-se ainda as demonstrações de capoeira, as batucadas e as rodas de samba, verdadeiras manifestações de cultura dominante.

O 1º Concurso de Músicas Carnavalescas teria sido realizado na Penha em 1917, a partir do prélio travado entre Sinhô e Caninha.

 

 

Fonte: Jornal Rio Suburbano

 

 

 

 

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